3.11.09

Notícias

Desemprego. Violência. Corrupção. Fome. Mortes. Horrores.
Eu, na minha vidinha monótona e insignificante, tenho outros assuntos mais importantes para me preocupar. Preocupo-me com o facto de o Outro Biscoito se destapar à noite e apanhar com a corrente de ar das frinchas da janela porque ainda não tive tempo nem dinheiro para ir comprar o varão dos cortinados para o quarto deles. Preocupo-me porque o Biscoito tem as costelas salientes e imagino que pensem que anda subnutrido. Preocupo-me porque a cadela está com o cio, anda nervosa e não come o suficiente. Preocupo-me com a renovação do meu contrato e com a renovação do contrato do meu marido. preocupo-me porque o Natal está aí à porta e eu a imaginar que o subsídio talvez não chegue para os presentes, para os roupeiros e para os cortinados que precisamos há mais de um ano. Preocupo-me com os almoços e os jantares, as roupas a precisar de remendos, os sapatos que se estragam. Preocupo-me.
Num mundo lá longe, do outro lados das notícias, crianças morrem de fome, morrem afogadas, morrem estropiadas, morrem soterradas. Eu aqui, com tanto amor para dar e tão pouco tempo com os meus filhos. Eu aqui, a chorar porque a comida que sobra do jantar não serve para alimentar aquela gente lá longe. Eu aqui a chorar porque o mundo é tão violento. Eu aqui a chorar porque a nossa vida não é um mar de rosas.
Vou deixar de ler a Ana Cássia. Toca-me demasiado a alma.

16.10.09

Parabéns para mim


O dia foi agitado, mas o bolo ficou mesmo assim. Delicioso e fácil de fazer.
A receita está aqui.



9.10.09

Euromilhões

Se eu ganhasse o Euromilhões, a primeira coisa que faria seria suprir todas as necessidades das nossas famílias. A segunda seria comprar a tal casa com quintal para enxotar os miúdos e o cão lá para fora ao fim da tarde. A terceira seria criar uma fundação. Fundação Azevedo-Ferreira para a Cultura. Assim. Não sei qual a definição legal de uma fundação, mas soa-me bem. Sobretudo, soa-me a bem. Haveria de arranjar a escola dos miúdos, que afinal, com instalações decentes aprende-se melhor. Haveria de criar concursos para se catalogar, transcrever e publicar on-line todo o espólio do A.N.T.T. e assim dar trabalho a gerações de paleógrafos que não fazem nada do que estudaram apra fazer. Haveria de fazer com que as escolas primárias e jardins-de infância públicos do meu concelho tivessem refeições gratuitas que sempre me pareceu uma incongruência ter de se pagar a alimentação numa escola pública. Quando fosse velhinha, haveria de me ser dado nome de jardim ou praça: Filipa Azevedo, Benemérita, Filantropa ou algo assim e os meus netos haveriam de ir comigo cortar a fita. Os meus descendentes haveriam de recordar o meu nome e ter orgulho em ser da minha linhagem de belos varões. Haveria de se cantar tudo o que eu fizera em vida. Se eu ganhasse o Euromilhões, haveria de deixar bom legado.
Porque raio é que os números me hão-de saír sempre ao lado?

2.10.09

Ora bolas

Descobri que sou pobre. Assim, como uma bofetada na cara, dou por mim a fazer contas à vida, a escolher o que menos me custa abdicar porque o dinheiro não chega para tudo. Sempre pensei que fosse rica ou que um dia o serei realmente. Agarro-me a essa esperança com unhas e dentes e passeio-me com um recorte de folhetim imobiliário com a fotografia da minha casa de sonho. Nessa casa com quintal haveria de enxotar os miúdos e o cão lá para fora ao fim da tarde e triturar a sopa no meu robot de cozinha último modelo de design retro enquanto bebo um gin tónico num copo de cristal atlantis e não vidro barato ikea. Menos mal, ninguém passa necessidades cá em casa, muito menos o cão. Ao meu lado repousa um saco com roupa para o Outro Biscoito que a minha mãe deixou. Roupa nova que a minha mãe trocou pelos sapatos que eu comprei e que não lhe serviam. Um balúrdio custaram-me aqueles sapatos num final de mês comprido demais. Depois há destas coisas, aniversários especiais com presentes a sério e a ideia de uma ida a Paris num fim de semana. Estranho-me. Não sei se deva, não fui habituada a isto de ir de viajem e os miúdos com as calças tão curtas. Por outro lado, que mal tem, os miúdos crescem e a viajem está mesmo ali à minha espera. Aproveito e compro as lembranças de Natal para toda a gente, tudo corrido a caixas de bolachas do Maxim's e da Fauchon, muito chique, irrepreensível bom-gosto, nem se esperava outra coisa. Divido-me. Não sei o que faça.
Durante toda a semana só me apeteceu desfazer o telefone na cara dos franceses. Não que tenha nada contra os franceses, muito pelo contrário, que seria de nós sem os irredutíveis gauleses. Mas é que assim ao telefone, as vozes das mulheres ficam mais irritantes com aquele tonzinho agudo no final das palavras e os meus ouvidos estreitam-se um pouco mais.
Descobri que estou a ficar surda, nada de anormal, mais do esquerdo que do direito, deve ser do telemóvel. Não, não é, só pode ser da janela do carro sempre aberta, as correntes de ar e a natação da adolescência. Nada disso me impede de fazer o meu trabalho, rebolar os olhos e suspirar por não estar autorizada a contar-lhes que as facturas não vão ser pagas a tempo porque a empresa pode dar-se ao luxo de só o fazer quando lhe der jeito. Dou por mim a pensar se atender tantas reclamações em tantas línguas todos os dias me estará a fazer bem. Ando nervosa, irrequieta, volta e meia emociono-me e não consigo evitar uma fungadela discreta. Paguem a merda das facturas e deixem-me em paz! digo eu mentalmente esperando que as minhas preces sejam ouvidas.

Amanhã é sábado, natação. Talvez consiga ensurdecer de vez com os salpicos da àgua.

29.9.09

A-B-Cinema

O meu Biscoito querido já sabe escrever. Não soletra quase nada, nem por isso se adestra no desenho dos grafismos, mas com grande entusiasmo escreveu "ParaaOmado Francisco edo Pedro" assim, tudo junto com um C e um N ao contrário e com um S perfeito. Foi o melhor aniversário que a Oma alguma vez teve, só nós, tão poucos e tão bons.

Amamnhã ele vai ao cinema com a escola. Ele nunca foi ao cinema. Até roí uma unha.

22.9.09

2 Anos

Vamos celebrar muito bem.

14.9.09

Dois casamentos,

um nascimento e dois funerais.
A minha avó Alice morreu. Não estou particularmente triste nem desgostosa. Apagou-se suavemente numa cama de hospital com uma idade respeitosa. Tinha-a ido visitar na quinta feira passada em jeito de despedida. Falara-lhe que tinha ido a casa dela e que as roseiras estavam todas em botão e os antúrios tão grandes que impediam a passagem. Pintara-lhe os lábios com o meu baton e ela sorrira. Espantara-se com as fotografias dos Biscoitos tão grandes.
Sábado, num casamento, dancei com o Ricardo e lembrei-me que ela gostava tanto de dançar. De a ver rodopiar tão elegante na saleta e de nos ensinar o tchatchatcha e a valsa.
Penso nela sempre que faço uma caçarola ou um bolo, sempre que embalo os meus filhos, sempre que ponho um chapéu ou uma roupa mais elegante. As rosas, as rosas.