24 Maio 2012

Velharias

Eu tenho um vício. Todos sabemos que para preservar a sanidade mental de cada um, é necessário algo que nos dê prazer e que possamos fazer sozinhos em alturas de stress, só para descomprimir, ganhar forças e enfrentar o dia a dia de cara alegre. Como já não fumo e raramente bebo gin tónico (entre gravidezes e amamentações, calculo que o último tenha sido algures no verão de 2004...) e qualquer tempo livre que tenha é utilizado para cozinhar/ir ao supermercado/passear o cão/cortar as unhas/fazer a depilação/arranjar as sobrancelhas etc, coisas que de agradável narcisismo têm muito pouco, gosto muito (ADORO) de ir à cata de velharias. Seja online, feiras ou lojas de toda a espécie, se tiverem um pote ou uma cadeira na soleira da porta (no caso das lojas), seja a palavra velharias (online) eu entro. Já atravessei uma aldeia inteira com dois filhos ao colo para ir espreitar dentro da porta com o lavatório de porcelana à porta. Já fiz desvios de trinta quilómetros para visitar um antiquário de que ouvira falar. Já comprei coisas que me pareceram boas na altura e que hoje me fazem pensar onde teria eu a cabeça para gastar dinheiro naquilo. Também já comprei coisas que por um preço irrisório se tornaram bens indispensáveis no dia a dia (como o kilim desbotado ou o puf marroquino), outras que afinal foram como a sorte grande (a aguarela abstrata ao artista de rua ou a Nossa Senhora de osso de camelo). Pois hoje, esmerei-me. Depois de um ano de calmaria, o furacão aterrou em cheio nos leilões. Por furacão entenda-se dinheiro na conta e boas peças na praça. Comprei finalmente uma secretária estilo ingês e um espelho dourado estilo francês, dois ítems fetiche desde sempre, entre outras peças decorativas. Consegui aguentar-me e não comprar as duas camas D.Maria nem o espelho talha dourada de metro e meio por não ter onde os pôr. E assim estourei boa parte do meu pé-de-meia, de tal forma que estou a escrever isto em jeito de catarse, não vá o coração não aguentar o preço dos martelos mais o iva. As janelas novas podem estar cada vez mais longe, mas caramba, o recheio está cada vez melhor.

23 Maio 2012

Primeiro banho de sol do ano e da vida

Enchi-me de coragem e em vez de ir passear o cão ao jardim fui passear o filho à praia.
E o miúdo adorou a areia e o sol e a àgua fria e comia areia às mão-cheias e berrava cada vez que me levantava para endireitar as costa e a onda descia e ficava com os pés a patinhar em seco.
Adormeceu que nem um anjninho durante a meia hora possível, mas um tipo musculado e cheio de tatuagens resolveu berrar para os outros dois amigos musculados e cheios de tatuagens mesmo por trás de nós e acabou-se-me o sossego.
Que bom que foi estender-me meia hora ao sol. A minha depressão agradeceu e o bebé dorme (des)cansado.
Agora vou deitar-me no sofá mais confortável do mundo a ver televisão e tentar apagar da memória a cabeça do Jude Law a rachar sob o impacto de um remo.

01 Maio 2012

1º de Maio

Dia do trabalhador, da Primavera e de Beltane, dia de São José.
Dia do trabalhador porque em 1886, em Chicago, uns quantos operários e sindicalistas resolveram manifestar-se pelo dia de trabalho de oito horas e foram chacinados pelas forças policiais.
Dia de Beltane, celebra o início do tempo de verão, da fecundidade da Terra no norte da Europa, Irlanda e Escócia desde tempos imemoriais. Marca o meio céu entre o equinócio da Primavera e o solstício de Verão.
Dia de São José, marido de Maria mãe de Jesus, o carpinteiro.
Um só dia para tantas festas. Ainda bem que é feriado.

23 Abril 2012

Em abril águas mil

Este mês de abril deve ter sido o mais atarefado de todos os meses de abril de todos os anos da minha vida. Não só por o Biscoito ter nascido em abril, mas porque, após anos de reclusão social, todos os convites convergiram para um aglomerado espacio-temporal de três fins de semana seguidos.

1 - Alemanha.
Transportar os miudos, as malas e o carrinho de casa para o aeroporto, do aeroporto para o avião, do avião para o aeroporto, do aeroporto para o carro do Opa e finalmente para a casa da neve sem neve. Fugir para Berlim e deixar os miudos e os avós entretidos uns com os outros. Fazer todo o percurso inverso até casa. Reparar na quanridade de espaço que ocupamos no avião e sentir que somos uma grande família.

2- Casamento
Explicar pela quinquagésima vez ao filho que faz sete anos nesse dia que a festa de aniversário foi adiada para a próxima semana por sermos convidados num casamento muito fino. Explicar ao filho mais novo que não pode ir vestido de pato nem brincar com o adereço de Luton (a meca dos chapéus) para o meu cabelo.
Maravilhar-me com o facto de os dois Biscoitos terem guiado a noiva ao altar numa perfeição estonteante e nem sequer refilarem com a gola de renda e os sapatos de seda. Trocar olhares sedutores com o homem mais sexy da festa (o meu marido) e aceitar todos os copos de espumante que me oferece só para tentar esquecer o facto de já não saber andar de saltos muito altos~e ter as maminhas cheias de leite por baixo do vestido de seda caríssimo. Lembrarmo-nos que Novo Biscoito precisa de mamar e que temos de deixar a festa.

3 - Prima
Arrastarmo-nos ao lanche de aniversário da prima e descobrir que já não há comida para ninguém.

4 - Aniversário
Organizar uma festa para um menino que gosta de dinossauros. Preparar o bolo arco-íris, o lanche para os meninos e o jantar para os avós. Apreciar a ajuda do marido, passar a manhã a fazer tudo o que é preciso e maravilhar-me com a minha própria eficiência quando não tenho bebés a meu cargo. Tropeçar em montes de miúdos divertidos, mascarados e cheios de legos e carrinhos em todas as divisões da casa e achar o máximo. Adormecer a saber que foi tudo como o Biscoito queria e que para o ano há mais.

5 - Final feliz
Começar a semana com dores de barriga, boca pastosa e enjôos: overdose de açúcar cacau, ovos e manteiga. Dieta forçada.

04 Abril 2012

Ich bin ein berliner (eu sou uma bola de Berlim)

(foto)

Voltar a Berlim, desta vez com o melhor companheiro de viagem do mundo.

16 Março 2012

Nuvem cinzenta

É como se fosse uma nuvem perpetuamente pairando sobre a minha cabeça, envolvendo-me o cérebro de um frio de gelar ossos. Uma nuvem cinzenta que vai escurecendo a partir das agressões que a pele deixa que entrem pelos poros. Uma indelicadeza aqui, um insulto ali, uma cara menos sorridente. Meses de sono em atraso, o meu corpo disforme, a ansiedade do regresso ao trabalho, as dores de cabeça e a loucura das sete da tarde elevada a três. Os banhos, os jantares, as birras, os cocós e os ranhos, os trabalhos de casa e o telefone que toca quando eu não posso atender, o cão a ladrar sempre que ouve o elevador a funcionar, a minha cabeça a explodir. Eu choro com a faca da cozinha na mão, tento controlar dois selvagens com gritos e ameaças, tento ignorar o choro do bebé que se entranha no cérebro e ressoa como uma trovoada. A nuvem cinzenta carregada, os ventos ciclónicos a extravasar da caixa craniana. E assim nasce a tempestade.

O arco-íris no fim do temporal promete sempre um amanhã melhor.